
MENSAGEM
(A volta do vale da morte)
Quando finalmente acordei
Me sentia vivo novamente
Mesmo estando no umbral
Eu não tinha muita noção das coisas
Mas me sentia bem como nunca
Aqueles que me resgataram vez por outra entravam no quarto
De mãos dadas, faziam bonitas orações
Eu tentava acompanhá-los
Mas logo dormia novamente
Passei muito tempo assim
E me sentia cada vez melhor
Agora recuperado
Era levado aos belíssimos jardins
Minha imagem era um resto de consciência
Então parecia ter vinte e poucos anos
Ao contrário dos setenta e poucos que tinha
Quando morri de câncer
Foi o anjo Joaquim quem me orientou sempre
Pacientemente ele me explicou tudo
Bondosamente me acolheu quando me lembrei de tudo
E me desesperei de arrependimento
Hoje em dia trabalho como voluntário
Na fraternidade de São Miguel Arcanjo
Embora seja um anjo guerreiro
São Miguel, para nós comandante Asthar Sheran
É um espírito muito evoluído e bondoso
Na fraternidade faço de tudo
E a cada dia me sinto mais e mais feliz
Muitos chegam aqui em estado deplorável
E vê-las caminhar novamente é como renascer
Para tudo na vida, há alguma forma de cura
Para todas as formas de cura existe uma só fórmula
E é a esta fórmula que damos o nome de amor
Quando sentir algo ruim dentro de si mesmo
Não feche os olhos como eu fechei em vida
E no vale da morte
Deixe o amor entrar e preencher completamente seu coração
Você vai ver que não haverá espaço para nada
Inveja, revolta, cansaço, tristeza ou ódio
Nada disso terá espaço dentro de você
Depois que o amor te invadir
Vivam a vida com amor
E estejam alertas com tudo que os possam tirar do caminho
Que a luz, o amor e poder estejam convosco !
O VALE DA MORTE
EU caminhei pelo vale do fogo
EU tive meus pés queimados
E quando estava descalço as pessoas riram de mim
E zombaram da minha cara de desespero
Posso ouvir suas gargalhadas
Pois é, eu me lembro bem
Não esqueci.
Eu me lembro das primeiras gotas de chuva
E a fumaça que começava a subir do chão
Lembro das náuseas provocadas pelo cheiro de enxofre
E dos demônios se retorcendo
Disso eu também me lembro bem
Aqueles desgraçados que me infernizavam noite e dia
Enquanto eu estava perdido no vale da morte
Eu jamais poderia me esquecer disso
Como jamais me esqueci da minha arrogância
A minha maldade, a minha crueldade
E toda a podridão que havia em mim
E que me fez ser mandado para lá
O vale das sombras, da dor, do sofrimento
Não sei por quanto tempo vaguei
Mas sei de cada coisa pela qual passei
Lembro de cada cuspida na minha cara
Dos gritos de horror, da destruição
E praguejei muitas vezes por isto
O inferno existe e eu estive lá
E não pense que não há espaço pois sempre há
Paradoxalmente, a melhor lembrança da minha existência
Também vem do vale da morte
Foi quando fui tocado
Lembro da turma que tantas vezes tentou falar comigo
E que finalmente eu havia conseguido escutar
Eles vieram me buscar
Minha vida mudou
O longo tempo no inferno amoleceu meu coração
Pude amar as pessoas
Pude ter compaixão até mesmo dos demônios
De lá as pessoas me levaram para um lugar diferente
Lindos jardins, pessoas amáveis
Joaquim me foi apresentado como meu tutor
Fiquei mais outros tantos tempos neste lugar
Mas isso é assunto para outro texto
A ser escrito quando esta lembrança retornar.
O Homem
O homem caminhava com um sorriso cerrado e lágrimas nos olhos
Em sua pele as cicatrizes do tempo
Não há ninguém do seu lado
Há muito seu companheiro é apenas o vento alado
O homem que perdeu seu grande amor
Engolido pela sua própria história
Consigo guarda cada linha
Aquele sorriso único guardado na memória
O homem continua sempre partindo
Um cigarro na boca seca
Na cabeça vazia nem mesmo um destino
O homem segue sua vida sem emoções
Não há mais nada em sua consciência
Apenas suas decepções.

INIMIGOS
Meu inimigo é tudo aquilo
Que sem saber me ajudou
Mas que inicialmente
Me prejudicou
Foi o primeiro tombo
A maçaneta alta
A porta trancada
O cansaço e a desilusão
O primeiro não
Obstáculos que surgiram
Para que eu os transpusesse
E aprendesse a lição
Para ser usada novamente
Para o obstáculo igual
E para o diferente
Meu inimigo também é o próximo
Que me traiu
Que me atacou
Que jogou sujo
Que se escondeu nas sombras
Que me prejudicou
É aquele quem eu perdoei
Mas do qual nunca me esquecerei
O inimigo é sempre o inimigo
E nunca um amigo
Porque as pessoas mudam
Mas não seus instintos
E seus motivos
Porque os sentimentos podem nos dominar
Porque eles podem nos levar a errar
O inimigo é aquele que erra como todos
Mas lhe acerta como poucos
Na parede da minha memória
Estão todos lá, perfilados
Me lembro de cada um
Embora nem me lembre dos seus atos
Não há rancor, mágoa ou ódio
Não há sequer desejo de vingança
Apenas os mantenho na memória
Para serem acessados a qualquer momento
Pois é preciso se defender
É preciso estar atento
Há qualquer momento um novo obstáculo
Poderá surgir na minha frente
Há qualquer momento meu inimigo
Pode ser levado a errar novamente
E se isto acontecer
Estarei preparado
Pois desde cedo aprendi a sutil diferença
Entre ter esquecido e ter perdoado.