

MORTES E RENASCIMENTOS
Eu não nasci a dez mil anos atrás
Nasci a bem menos, 32 apenas
Melhor dizendo
Já nem sei a quanto tempo nasci
Porque já morri várias vezes
A primeira vez que morri
Ainda no jardim de infância
Foi pela minha professora
Sua inexperiência e ignorância
Meu nome, não tinha o nome de meu pai
Diferente de meus irmãos
Foi minha primeira morte
Para uma criança uma morte muito forte
Depois disso morri algumas vezes
Junto de outros mortos
A cada velório eu morria junto
Sem entender que não é preciso morrer
Para estar sempre junto
Na adolescência muitas situações
Tiveram a morte como conseqüência
Na escola de ricos, a dificuldade de meus pais
Me matou várias e várias vezes
Na escola de pobres não foi diferente
A morte veio na forma de estudante carente
De amor também morri várias vezes
Morri a cada partida, a cada despedida
A cada esperança perdida
Falo hoje das minhas mortes
Justamente para celebrar a vida
Porque se houveram tantas mortes
Também houveram outros tantos renascimentos
E renascer tantas vezes das cinzas
Me fez ser o que sou hoje
Apesar de ter morrido várias vezes
Nunca foi comigo a esperança
E o que faz com que ela esteja viva
É o sabor de renascer
De sobreviver
De superar
De suportar
Quantas vezes você morreu ?
Olhe para traz, pense, veja !
E se você está lendo este meu texto hoje
É porque está vivo !
Morre-se de amor
Morre-se de traição
Morre-se de desilusão
Morre-se de tudo, mas renasce-se sempre
Sempre que haver esperança
Sempre que haver perseverança
As vezes é necessário mesmo morrer
Mas para morrer é necessário sobretudo
Que se saiba como renascer.

A mulher que gritava demais
Mais um grito ecoou
Era a jovem mulher
Que gritava demais
Não me lembro o motivo
Pois quase sempre era sem sentido
Gritos desesperados
Como se ela própria estivesse morrido
Eu transeunte abismado
Olhei para aquele carro espantado
A mulher gritando sem parar
E seu marido com semblante desesperado
Quase sempre estavam lá
Hora felizes no carro, até transando
Hora transtornados
E como sempre a mulher gritando
Seus berros se transformaram em rugas
E a idade foi ligeiramente avançada
Apesar da pouca idade
A mulher parecia uma velha cansada
Seu marido quase sempre calado
Talvez imaginando qual foi seu pecado
Tinha um olhar triste e longe
Como quem olha o nada atravessado
Certa noite encontrei o pobre homem
Que se divertia em um prostíbulo da cidade
No prostíbulo mulher nenhuma grita
E lá ele encontrava a paz de verdade
Como de costume eu caminhava para a padaria
Como de costume dentro do carro a gritaria
Desta vez além da gritaria agressão
A mulher tentava bater com alguma coisa na mão
Chamei a polícia
Fui na sua direção
Pedi para que parasse
E a mulher gritou comigo então
Sorri para mim mesmo
Num misto de dó e compaixão
A mulher que grita em breve ficará sozinha
Sem voz e cheia de rugas de expressão
No prostíbulo que eu visitava regularmente
Encontrei o homem novamente
A aliança no dedo já não estava mais
E seu passado triste com a mulher que grita ficou para traz
Contei a ele quantas vezes o via dentro do carro
Entre um streap tease e outro ele me contou o seu caso
A mulher que grita agora velha e acabada foi deixada
E seu ex marido agora procura uma mulher mais equilibrada
A mulher que grita continua gritando demais
Na falta de um marido ela grita com seus pais
Suas rugas denunciam sua insanidade
E sua alma talvez nunca ficará em paz
A PASSAGEM DO FURACÃO
Ensina-me
Me diga a verdade
Me mostre a luz
Eu preciso saber
Eu preciso saber
Quando passou o furacão
Lá estava minha vida
Espalhada quilômetros pelo chão
Alguns detalhes diferenciavam
Só assim identificava o que era meu
No meio do caos minhas coisas agonizavam
Sobre alguns escombros escondido
Encontrei meu coração
Ainda com vida, apesar de totalmente partido
Também achei minha velha identidade
Despedaçada pelo chão
De nada servia e carecia de substituição
Em meio a pedaços de um muro decadente
Encontrei minha vontade
E jurei nunca perdê-la novamente
Encontrei minha tolice
E deixei ela por lá
Já não a quero mais
E havia coisas mais importantes a encontrar
Haviam retratos espalhados pelo caminho
Momentos totalmente destruídos
Separei apenas alguns e guardei-os com carinho
Algumas amizades jamais encontrei novamente
Encontrei uma crença que não era a minha
E guardei-a por ter me deixado contente
Mais adiante na destruição
Pedaços do belo passado
Tentar colá-lo seria inútil e em vão
No meio do lixo a saudade agonizava
E para evitar um maior sofrimento
Infelizmente tive que sacrificá-la
Do alto da colina vi minha vida destruída
Espalhada por dezena de quilômetros
Era a hora de partir, era a hora da despedida
O vento soprou e ela se esfacelou
Sorte a minha poder recolher algo que restou
Mas decidi reconstruir em outro lugar
Onde a terra é firme e é lindo o sol e o mar
Onde o vento não consiga destruí-la novamente com o seu soprar
A louca e o psicanalista
No alto de uma torre
A doida desvairada
Caminha sem parar
De lá pra cá
De cá pra lá
Caminha sem parar
De lá pra cá
Daqui pra lá
Ela só para pra gritar
Ela grita por socorro: "- Socorro!"
Ela pede que se solte: "- Me solta!"
Sua mãe pede por favor
E sua irmã chama logo o doutor
Vez por outra a ambulância chega para buscar
Camisa de força 38 "- Você não pode mais engordar!"
Palavrões e gritarias começam a ecoar
Só o calmante na seringa é que faz ela parar
De lá pra cá
De cá pra lá
Para o tratamento vai voltar
De lá pra cá
Daqui pra lá
Mais uma vez ela vai se internar
A louca desvairada resolveu se tratar
Psicanálise e comprimido para a mente se tratar
Psicanalista mui amigo convida para jantar
Mão na perna atrevida sexo para aliviar
A promessa continua junto com sexo eventual
Tratar de louco é ruim mas sexo fácil não é mal
Froid sempre que podia dizia "- Sexo é fundamental!"
O Psicanalista comprovava com uma experiência sem igual
De lá pra cá
De cá pra lá
Tratamento a base de sexo para melhorar
De lá pra cá
Daqui pra lá
Umazinha no consultório para o Doutor relaxar
A louca desvairada queria se casar
E o Doutor muito esperto decidiu se ausentar
Uma receita de seis meses para a mãe aviar
Calmante bom que te acalma e te esquece de pensar
O remédio fez efeito e pôs a louca a babar
Sem a camisa 38 ela voltou para o lugar
No alto de uma torre a louca desvairada caminha sem parar
De lá pra cá
De cá pra lá
Ela nunca vai acordar
De lá pra cá
Daqui pra lá
Até a hora que o Doutor sentir saudade e voltar
O QUARTO ROSA
Ela vive no quarto rosa
Dentro dele um armário barato, uma cama
Um baú de coisas antigas
E seu computador que lhe proporciona várias vidas
Atrás da máquina, ela pode ser quem quiser...
De dentro do baú, ela retira fotos antigas
É o começo do século no Rio de Janeiro
Então ela é a moça bonita da foto antiga
Mensagens e conversas pela madrugada
Na tentativa de ser aquilo que não é
Hoje ela vai pintar seus cabelos
Mais uma noite se aproxima
E a moça agora loira se prepara
Ela vai arrumar nova religião ou casamento
Tudo falso logicamente
Na tentativa de ser feliz por um momento
No antigo baú também há uma velha boneca
Lembrança da infância infame
Da criança que sequer chorava
Realidade diferente do que sempre sonhava
Tristeza que sua boneca denunciava
Sem cabelos e pelo tempo desfigurada
A moça hoje estava nostálgica
E do lado da tela do micro uma foto de alguém descansada
Era seu antigo noivo, alguém que muito amara
Levado pelas ondas do mar foi embora
Deixando-a com a saudade que não se esgota
A moça do quarto rosa todas as noites se transforma
Ela foi sua parenta do século passado durante um mês
Época em que os quilos a mais eram a moda da vez
Já foi loira com os cabelos em tom aparecido
Uma boa imagem para quem sabe um bom marido
Até seu noivo ela já foi certa ocasião
Todos os defeitos possíveis que de saudade apertam o coração
Certa noite ela decidiu ser ela mesma
Filha de um velho alfaiate que moldou sua realidade
Filha da atendente na farmácia que a todos cura sem ser tratada
Sua pele escura, para a tela foi transplantada
E sua inteligência e sabedoria finalmente foram libertadas
Muitos pretendentes se candidataram
Vagabundos, artistas e até empresários se declamaram
Mas hoje não era dia de arrumar casamento
Ela queria poder ser apenas ela por um momento
No quarto rosa foi colocado na parede uma foto e uma oração
São Miguel Arcanjo proteja todos os meus eus
E eu lhe agradeço de coração
Proteja também meu falecido noivo
Que um dia pode me mostrar o que é a felicidade
E eu não pude compreendê-lo de verdade
No alto daquele grande prédio
Há uma luz que vem do nono andar
No manicômio de Santa Efigênia
Até os loucos pararam de gritar
A luz do quarto rosa está acesa
E há alguém no computador a teclar
A moça hoje é outro alguém
Que não sabemos quem será
Ela não terá um pai alfaiate
E um noivo para chorar
Na farmácia de sua Mãe não há remédio para insanidade
E as madrugadas no quarto rosa continuarão longas de verdade
Personagens com imagens, vidas e histórias
Que se confundem até mesmo com a dona deles
Que vive no seu mundo construído em um quarto
Que nem sabemos se é realmente rosa a cor daquelas paredes.